“Bate um cansaço terrível quando começo a dialogar com as pessoas. Elas sempre começam a discordar e argumentar por qualquer pequena ironia ou discurso informal que eu faça, pode ser até mesmo algo pequeno, mas se transforma rapidamente em polêmica, porque elas aprenderam na escola que precisam ser sempre críticas e exercerem suas capacidades de “humanos pensantes”. Elas brigam por tudo. Principalmente se estiverem estressadas, o que ocorre com frequência. Qualquer motivo ridículo é motivo para começar a ofender os outros, e inúmeras réplicas e tréplicas, uma chatice só. O dia que eu começar a levar a coisa a sério, elas vão ficar caladas, de boca aberta, ou até mesmo com raiva de mim. O que é mais provável.”
Fico quieto. Primeiro que paixão deve ser coisa discreta, calada, centrada. Se você começa a espalhar aos sete ventos, crau, dá errado. Isso porque ao contar a gente tem a tendência a, digamos, “embonitar” a coisa, e portanto distanciar-se dela, apaixonando-se mais pelo supor-se apaixonado do que pelo objeto da paixão propriamente dito. Sei que é complicado, mas contar falsifica, é isso que quero dizer. Quanto mais não-dita, melhor a paixão.
Tenho estudado tanto, mas penso sempre em você. Mais de tardezinha que de manhã, mais naqueles dias que parecem poeira assentada aos poucos, e com mais força enquanto a noite avança. Daí penso coisas boas e bobas quando, sentada na janela do ônibus, depois de estudar o dia inteiro, encosto a cabeça na vidraça, deixo a paisagem correr, e penso demais em você. Quando não encontro lugar para sentar, o que é mais freqüente, e me deixava irritada, agora não, descobri um jeito engraçado de, mesmo assim, continuar pensando em você. Me seguro naquela barra de ferro, olho através das janelas que, nessa posição, só deixam ver metade do corpo das pessoas pelas calçadas, e procuro nos pés delas aqueles que poderiam ser os seus. (Ahhh teus pés, lembro.) E fico tão embalada que chego a me curvar, certa que são mesmo os seus pés parados em alguma parada, alguma esquina. Nunca vejo você. No meu pensamento, você não me critica por gostar tanto de você, e diz tudo que eu queria ouvir. Tenho estudado tanto, por isso mesmo talvez ando pensando assim em você. Suspiro tanto quando penso em você, chorar só choro as vezes, e é tão freqüente. Não tenho tido muito tempo ultimamente mas penso tanto em você que na hora de dormir vezenquando até sorrio lembrando dos seus olhos sempre fugitivos e fico pensando em tudo que poderíamos ter feito se não fosse esse teu medo de tentar. Eu me sinto ás vezes tão frágil, queria me debruçar em alguém, em alguma segurança. Invento estorinhas para mim mesma o tempo todo, me conforto, me dou força. As vezes sonho que você está comigo, parece pouco, mas me deixa inquieta. Eu estou cheia de ficar triste, esgotada querendo que você estivesse aqui. Eu sempre convivi bem com a solidão, mas já estou exausta. E me pergunto se, quem sabe um dia, na hora certa, nosso encontro pode acontecer inteiro. Fico vivendo uma vida toda pra dentro, lendo, escrevendo, ouvindo música, fingindo que sou feliz, que sou auto-suficiente, mas penso em você o tempo todo e em todo tempo.
Publicar um texto é um jeito educado de dizer “me empresta seu peito porque a dor não tá cabendo só no meu”.
| — | Tati Bernardi |
